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Capitulo 2 - O ventilador

Felicidade é uma palavra complicada de se definir e extremamente complexa na sua denominação. Haja vista que por muitas vezes já tivermos a oportunidade de dizer em algum momento da vida que estava "feliz". Parado no tempo, mais precisamente em frente ao meu ventilador foi que refleti sobre minha vida, o rumo que se seguia e até onde pude chegar. Tirei uma série de conclusões sobre a sobre a minha vida. Então, para que a história comece de forma clara em sua explicação, irei começar do ponto de partida da palavra felicidade.
 Felicidade e realização naquele momento se misturavam em minha vida. Nem ao menos tive tempo para separar o joio do trigo e por isso que tal definição fora, de certo modo, mal interpretada. Eu vivia em um momento o qual julgava feliz e realizado, em minha melhor fase financeira e profissional. Me deleitava com amigos em festas. Poderia até ser que o dinheiro não era lá uma fortuna e não era, mas também não era um problema para quem tinha bons lugares e boas companhias. A regra era clara, se divertir. Um grupo de amigos solteiros sabem muito bem como encontrar diversão, conhecendo sempre um ao outro, tédio não existia. O final de semana era esperado, mas a diversão não esperava pela típica sexta, pois já estava em prática no início da noite de quinta. Lugar? Bom, era sempre variável, mas nunca um lugar era menos divertido do que o outro, afinal éramos nós que levávamos a diversão.
 A falta de comprometimento sentimental ajudou muito e com isso. Um desprendimento de pudor incalculável nos faziam ser príncipes do prazer. Coitado de quem se prendia a tal sentimento momentâneo, coitado de quem se via "apaixonado", pois diante de tanta correia e diversão, ficaria para atrás quem se percebesse apaixonado. E na fase em que vivíamos, ninguém queria ficar para atrás. Quinta, sexta, sábado, domingo. Pois bem, nos julgávamos infelizes durante a semana afim de desfrutar da quinta em diante e tirar o atraso de uma semana tediosa. Contávamos as horas e os minutos para nos encontrar novamente e seguir em nossa jornada. Até um fato veio atrapalhar nosso momento.
 Em um final de semana nos encontramos em uma cidade no interior do estado. Bem aconchegante e bem divertida. Um pouco bêbado, me vi descontrolado por motivos bobos que nem ao menos me lembro. Saí no carro e em uma ré bati em uma arvore e por pouco não cai no rio. Saí só pela cidade e bebi mais ainda. Voltei e irresponsavelmente bate o carro mais uma vez. No dia seguinte notamos os estragos. Não era lá um estrago, mas como o carro não era meu já dá para se imaginar minha aflição. Pois bem, o carro era do meu trabalho e eu apenas tinha a função de guardá-lo no final do expediente. Para não se estender nesse assunto irei logo ao fato. Por não ser meu, logo o assunto chegou aos meus superiores, sacudiu minha vida financeira e principalmente profissional. Levei uma baita punição e um senhora advertência, daí então deixei que a situação dominasse meu ânimo. Meus amigos tentaram de certo modo me ajudar de alguma forma, mas sabe como é. Nem todos os amigos estão no momento certo quando a gente mais precisa. Aliás, nem todos os "amigos" eram amigos quando deveriam ser amigos. Em casa, diante do meu ventilador, tive uma reflexão.
 Uma das piores sensações de quem tem carácter é ver um grande amigo perder a confiança em você. Isso foi o que senti quando meu chefe que brigou tanto para que eu tivesse uma melhor condição de trabalho, se afastar de mim de uma tal forma que aos pouco essa condição foi se apartando de mim. Foi angustiante e, sem sombra de dúvida, de matar de vergonha. Em casa, já em frente ao meu ventilador parei para pensar e percebi o quanto eu tinha tudo que precisava e ao mesmo tempo nada. Lembra de quando falei do desprendimento sentimental para não ficar para atrás? Pois bem, quantos momentos verdadeiramente felizes eu deixei para atrás? Quantas oportunidade de viver uma verdadeira alegria foi deixado de lado em troca de momentos tão frágeis que em um conflito se desfragmentaria? Daí, pensei pela primeira vez sobre minha felicidade. Como seria? Quando seria? Com quem seria? Notei que um homem precisa muito mais do que dinheiro, carro, festas e até amigos para se notar como homem de carácter. A consciência me bateu e percebi que nunca fui um homem como eu sempre me imaginava. Notei que o mundo e suas possibilidades eram bem maiores em seus valores do que em suas quantidades. Descobri que eu poderia ser bem maior, sendo bem menor. E então deixei minha vida seguisse a normalidade, sendo eu mesmo, mesmo que nem tão normal assim.

 De volta ao ventilador vi o tempo passar. Me envolvi em relacionamentos trágicos que esgotaram de mim não somente o sentimental, mas financeiro também. Aos poucos fui me afundando em uma depressão que pouco a pouco foi deixando aquela reflexão de felicidade de lado. Me encontrei agora de forma minimalista e despretensiosa em braços de outros amores, trocando outros sentimentos sem a pretensão de olhar para o futuro. Pouco a pouco eu voltava a ser como antes. Não que eu quisesse, mas por colecionar frustrações amorosas e ser alvo de tanta crítica. Mergulhei no descompromisso sentimental, onde o sexo viria sempre em primeiro do que o amor. De tanto tentar, de tanto buscar foi que me encontrei em braços também despretensiosos e sem o puro sentimento. E me vi mais uma vez só. Diante de tudo, me julguei experiente, sem saber que o amor era para amantes. Sem saber o que era o amor, me vi desviando de possibilidades e me jogando em aventuras quaisquer. Quando meu coração reagia a um possível sentimento, meu ego profissional do amor logo se julgava como um Dom Roam do subúrbio, levando quem me amava a me amar mais ainda e me possibilitando estar mais seguro do amor, tendo em vista o seu princípio, meio e fim.
 Pois bem, caro leito, quanto mais a gente ama, mais a gente desconhece do amor. Era sempre diante do ventilador que eu me descobria como gente. Eu queria de fato, alguém para amar e ser amado. Por mais exigente que eu fosse, todo mundo tem esse direito. Comigo não poderia ser diferente. Olhava para o lado vi grandes amigos se transformando com as transformações do amor e eu simplesmente na mesmice. Me vi acuado e sem perspectiva sentimental. O tédio tomava conta de mim e pouco a pouco aquele estado me incomodava. Eu queria amar e ser amado. Eu tinha isso na cabeça e levantava como uma bandeira. Até que um dia, conversando com um amigo sobre isso percebo que eu não estava errado no que desejava, apenas na forma que eu desejava. Notei que era um tanto egoísmo da minha parte pensar em mim em contrapartida do amor, ou seja, eu queria somente ser amado em contrapartida amar. Daí eu percebi que eu estava caindo no mesmo erro de muitos casamentos de hoje em dia, casar para ser feliz. Percebi, diante do ventilador, que o amor seja complicado ou não é reciproco e nunca injusto. Se um dia eu amar verdadeiramente eu serei amado. E se um dia eu amar e não ser amado, é porque o amor por mais verdadeiro que eu julgasse que fosse jamais deixaria que tal injustiça fosse feita. Foi quando percebi que meu propósito deveria mudar. A partir de então o meu coração buscava alguém para fazer feliz a ama-lo, pois se existir de fato o amor, assim será naturalmente reciproco.

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