Por inúmeras vezes me
vi parado no tempo sem a mínima expectativa do futuro e dos caminhos que devia
seguir. E diante de tudo, sempre me veio em mente relatar cada momento em que
pude chegar a esse ponto. Sei que dificilmente alguém há de se interessar em
saber de uma vida tão sem roteiro como a minha. Chega a ser desinteressante,
mas faço questão que saibas, caro leitor, que pode interromper essa leitura e
buscar outros temas e outras histórias.
Eu sou feliz e busco
com todas as minhas forças vivenciar cada momento, pois acredito que tudo pode
ser único com a mesma proporção de ser eterno. Parece fantasioso, e é. Mas não
posso negar que minha postura tão lírica da vida tem me guiando a momento
eternos, porém conturbados, pois quando se compartilha poesia a quem está
acostumado a sentir na pele a desilusão da realidade, uma hora ou outra também
sentirá de forma carnal a gosto amargo da incompreensão.
O que quero dizer, caro
leitor, é que sou sim um apaixonado pela vida e que ainda não me desprendi do
roteiro poético dos contos de fadas. Levando para a realidade de minha vida
conflitos brutos e ao meu ver, injustos diante de um caminho que segui quase
sempre na contramão dos meus planos. No entanto é importante ressaltar que
mesmo com a cabeça nas nuvens e o celebro no coração, vivi uma vida tão comum
como qualquer criança pobre com problemas sociais. Desprendido de quaisquer
privilégios que os faça me julgar como mimado.
Sou filho de país até
hoje casados, mas tiveram uma conturbada relação marcada por alcoolismo,
traições e brigas. Situações que em nenhum momento me privou de testemunhar as
piores formas possíveis de uma relação familiar. Houve tempos em que me julguei
forte e isento de qualquer possível trauma que uma infância conturbada poderia
me proporcionar, mas o desdobramento da vida me proporcionou arrancar das
raízes sentimentais frustração, tristezas e dores que guardei por muito tempo e
que em tal momento pude pôr para fora como larvas de um vulcão adormecido,
mostrando-me que uma dor esquecida nem sempre é uma ferida curada. Tive que
enfrentar essa realidade na minha vida e retirar qualquer maquiagem
sentimental. Tive que deixar de justificar ódio paterno com simples conflitos
domésticos e assumir que algo precisaria ser colocado para fora, bom ou ruim,
seja lá o que fosse, assim o fiz.
Quando toda frustração,
dor e lamentação fora jorrado para fora em forma de lágrimas, quando todas as
dores adormecidas e todo meu ódio acumulado fora exposto ao mundo e
principalmente ao meu pai, pude perceber que a vida não tinha o direito expor
falsas realidades. E que toda dor deveria ser enfrentada e tratada, por mais
incômoda que seja, pois mais cedo ou mais tarde tudo isso voltará de forma mais
avassaladora ou até mais cruel. Daí então, segui acreditando não mais colocar
as mágoas por debaixo do tapete. E assim como a dores, pude perceber que todos
os momentos felizes e marcantes da minha infância também tinham direito de ser
revivido, afim de saborear novamente o paladar da vida, sempre vivido da forma
mais intensa como uma criança. Foi quando fechei os olhos, respirei fundo e
como um sopro pude renascer em mim a esperança de sentir-me feliz vivendo o que
sempre vivi e experimentando o prazer de estar vivo, sendo quem eu sou
independente de qualquer julgamento. Nasci então em mim um poeta, nasci em mim
a vontade avassaladora de descrever quem sou, para me notar vivo.
Se chegaste até aqui,
devo imaginar que talvez tenha despertado certo desejo em saber qual história
eu irei contar. Alerto sempre que estás livre a qualquer página ou parágrafo
que lhe desinteressar a abandonar a leitura, mas se seguires até o final
ficarei grato, pois saberei que pelo menos um pouco do que relatarei será
compreendido, afim de levar para sua vida um pouquinho do que quero ensinar ou
indicar como um caminho a seguir.
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